
Manifesto de Indignação: A Saúde Pública que Enterra Vidas
Hoje eu enterrei o meu avô. E, junto com ele, enterrei também qualquer resto de respeito que eu poderia ter pela gestão da saúde pública na UPA de Vilhena.
Ele deu entrada na unidade porque estava passando mal, confiando a vida a quem deveria saber protegê-la. O exame dele continha alterações claras, mas os profissionais de plantão falharam no básico: não conseguiram identificar o problema. Enquanto ele agonizava deitado de forma precária em duas cadeiras, o tempo corria contra ele. Se tivessem lido o exame corretamente, se tivessem o preparo mínimo para enxergar o óbvio, ele teria sido transferido imediatamente para a UTI. Ele teria tido a chance de lutar. Ele teria sobrevivido. Mas a incompetência e o despreparo trancaram a porta do socorro que ele precisava.
Estamos falando de seres humanos. De pais, mães, irmãos, filhos e avós. Vidas que importam, mas que parecem ser tratadas apenas como números ou estorvos em um corredor lotado.
Essa negligência não é novidade para mim; é um padrão antigo. Eu vivi a minha vida inteira nessa cidade, convivendo com problemas crônicos de saúde, e cansei de ver o chão daquela UPA. Cansei de passar horas deitada em uma cadeira, tomando apenas um soro na veia, enquanto o tempo passava e ninguém resolvia absolutamente nada. A única alternativa que me restou para continuar viva e ter um tratamento digno foi ir embora do estado. Tive que fugir da minha própria terra para não virar estatística.
Infelizmente, meu avô não teve a mesma chance de escapar. Ele ficou ali, à mercê de um sistema falido e de uma equipe que negligenciou um exame crucial, permitindo que o quadro dele se agravasse ao ponto de o leito de UTI só chegar quando já era tarde demais.
O que acontece na saúde de Vilhena não é um erro isolado, é um reflexo vergonhoso de como a vida humana perdeu o valor para quem deveria protegê-la. Quantas famílias mais precisarão chorar a morte de seus entes queridos para que a incompetência seja tratada com a gravidade que merece?
A dor da perda é imensa, mas a revolta contra o descaso é eterna. Vocês não lidam com papéis, lidam com vidas. E a conta dessa negligência chegou, da forma mais dolorosa possível, na porta da minha família.